Bolsonaro rebaixa Mourão a vice que não cabe na decoração

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Bolsonaro rebaixa Mourão a vice que não cabe na decoração

Jair Bolsonaro é um presidente que não acredita em fantasmas, mas sabe que eles existem.

Alguns habitam a sua própria cabeça.

Outros estão na linha sucessória, antecipam mudanças no ministério, dão palpites em público sobre assuntos internos e precisam demitir assessores que saem por aí ensaiando golpe.

Dias atrás, o capitão mandou um recado ao general recrutado a vice na hora-limite da inscrição da dupla para a corrida presidencial.

“Lamento que gente do próprio governo agora passe a dar palpites no tocante à troca de ministros”, disse Bolsonaro, durante uma live. “O que nós menos precisamos é de palpiteiros no tocante à formação do meu ministério. Deixo bem claro que todos os 23 ministros sou eu que escolho e mais ninguém. Ponto final. Se alguém quiser escolher ministro, se candidate em 2022 e boa sorte em 23.”

Embora não tenha citado nome, a pedrada tinha um endereço: Hamilton Mourão.

Na terça-feira 9, o presidente deu mostras de que acertou o alvo.

Em uma reunião com os ministros, chamados um a um, o que mais chamou a atenção foi a ausência do vice-presidente, que no famigerado encontro de 22 de abril passado continha uma risada de Monalisa ao lado do ex-parceiro de chapa. Desta vez o sorriso decorativo foi dispensado.

De lá pra cá não foram poucos os desencontros entre eles, como uma espécie de inversão de papéis. Três décadas após sair do Exército pela porta dos fundos da indisciplina, agora é o capitão que arranca os cabelos pelo subalterno que ignora seus apelos para fechar a boca.

O auge da tensão aconteceu quando um assessor de Mourão entrou em contato com o funcionário de um parlamentar para anunciar um racha nas forças armadas, na qual uma das alas já via o vice-presidente como a melhor opção para governar o país. Vazada a conversa, o assessor foi demitido, mas a fumaça não se dissipou.

Bolsonaro, dizem, desconfia que é Mourão o garganta que espalha por aí os planos e os segredos mal guardados de seu governo.

Em dezembro de 2015, quando as rusgas com Dilma Rousseff já não eram fofocas de bastidores, Michel Temer endereçou a ela uma carta com o potencial explosivo de uma bomba de hidrogênio. Nela, queixava-se por ter passado os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. O resto é história.

A ausência de Mourão na reunião presidencial foi mais do que um recado de desautorização. Foi o rebaixamento do vice a figura que não serve sequer para a decoração. Nem para sorrisos enigmáticos.

Desmoralizado, em público o general fez pouco caso do desdém presidencial. Para ele, se Bolsonaro considerava sua presença na reunião dispensável, tudo bem.

A resignação parece não chegar à segunda página.

Mourão marcou, para o dia seguinte, uma reunião do Conselho da Amazônia com 15 ministros do governo. No encontro, segundo a CNN Brasil, Mourão vai avisar que as Forças Armadas deixarão de comandar as operações de fiscalização da Amazônia a partir de 30 de abril.

Resta saber se o presidente está sabendo. E, se está, o que pensa a respeito.

Quem assiste ao tiroteio a distância pode pensar o que quiser. Inclusive em desembarque.

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